CARTA DE BROADSTAIRS JUNHO DE 2026
Dado o anúncio de que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X pretende consagrar quatro novos bispos sem mandato papal neste mês de julho, algumas palavras sobre o assunto podem ser oportunas.
Certamente a Igreja necessita de bispos validamente consagrados, não apenas para administrar os sacramentos, mas sobretudo para pregar a Fé e denunciar os erros modernos que ameaçam essa mesma Fé.
Sem dúvida, a Fraternidade também necessita de bispos para dar continuidade ao seu apostolado mundial, especialmente porque os dois bispos restantes já não estão ficando mais jovens.
Dito isso, é importante compreender que as próximas consagrações não farão automaticamente a Fraternidade retornar à sua posição anterior de manter distância da Igreja Conciliar.
“É imperativo para todo sacerdote que deseja permanecer católico separar-se da Igreja Conciliar até o momento em que ela tenha retornado ao Magistério tradicional da Igreja e à Fé Católica.”
— Arcebispo Marcel Lefebvre, Itinerário Espiritual (1990)
Assim, o princípio orientador era não entrar em acordos práticos com a Roma moderna até que Roma retornasse à Tradição Católica. Tal retorno seria manifestado pela aceitação, por parte de Roma, das encíclicas antiliberais e antimodernistas, do Juramento Antimodernista, da Realeza Social de Cristo Rei e de uma verdadeira consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.
Esse princípio mudou em 2012, quando as discussões doutrinárias e os contatos crescentes com a Roma moderna resultaram na chamada “negociação Rolls-Royce”, proposta por Bento XVI a Dom Fellay, e isso apesar da persistência de Roma nos erros modernos do liberalismo, do modernismo e do falso ecumenismo.
O acordo não se concretizou devido à recusa da Fraternidade em aceitar a Nova Missa e o Concílio Vaticano II, mas o dano já estava feito.
O “Ano da Misericórdia” de 2015-2016, sob o Papa Francisco, teve entre suas principais intenções a reintegração da Fraternidade na chamada “Igreja Oficial”. Essa intenção foi colocada ao lado da reabilitação de casais divorciados recasados fora da Igreja, bem como de casais homossexuais em uniões estáveis.
Na mesma ocasião ocorreu a concessão, aparentemente unilateral, de jurisdição ordinária à Fraternidade para ouvir confissões, devido ao fato de ela estar supostamente em um caminho rumo à plena comunhão com Roma.
Em 2017, a Fraternidade celebrou um acordo prático com a Roma moderna a respeito dos matrimônios, colocando efetivamente estes últimos nas mãos da hierarquia conciliar local.
Portanto, caso a Fraternidade realmente pretenda retornar à sua posição anterior e firme, tal como sustentada pela chamada Resistência, seria necessário fazer uma declaração inequívoca nesse sentido.
Sem isso, a Fraternidade continuaria, independentemente de quaisquer sanções, em seu desejo de ser reconhecida pelas autoridades conciliares e de coexistir com elas, na esperança de um dia obter uma capela lateral em sua basílica ecumênica.
Tal declaração também deveria incluir especificamente uma rejeição do acordo prático sobre os matrimônios firmado em 2017, que submeteu os bastiões da Tradição à hierarquia modernista.
Isso é algo muito diferente de simplesmente renunciar às chamadas concessões obtidas até agora. Antes disso, os matrimônios da Fraternidade eram celebrados com base na jurisdição suprida, e os documentos assinados pelas partes declaravam claramente as justificações para tal prática.
Os matrimônios celebrados em virtude desse acordo, seja pelo delegado do ordinário local, seja por delegação direta a um sacerdote da Fraternidade, ficam sujeitos, em ambos os casos, ao Novo Código de Direito Canônico e aos tribunais matrimoniais conciliares.
Assim, ficam potencialmente expostos a “anulações rápidas” de caráter duvidoso, às quais os interessados podem agora recorrer de boa-fé.
Longe de fortalecer o vínculo matrimonial, como afirmavam os superiores da Fraternidade na época, esse acordo prático acabou por enfraquecer os matrimônios e as famílias católicas tradicionais.
Outros assuntos que deveriam ser incluídos numa declaração também deveriam abordar:
* a pseudo-consagração da Rússia ao Imaculado Coração realizada pelo Papa Francisco em 2022 (aceita oficialmente pela Fraternidade naquele momento);
* a política de não realizar mais habitualmente ordenações condicionais para aqueles que vêm da Igreja Conciliar;
* o dilema moral causado pela posição oficial da Fraternidade em relação às vacinas contra a Covid.
É por isso que vemos com certa preocupação o alinhamento de indivíduos e comunidades até então lúcidos à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, como se tudo voltasse ao normal no combate pela Fé simplesmente em virtude das consagrações anunciadas.
Vemos na presente confusão dentro da Tradição Católica um exemplo da desorientação diabólica profetizada por Nossa Senhora em Fátima.
Que continuemos a trabalhar e a rezar por uma verdadeira consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, para que, em seu triunfo prometido, a Igreja seja libertada dos flagelos e dos agentes do liberalismo, do modernismo e do naturalismo.
+ Paul Morgan
Festa do Sagrado Coração de Jesus
12 de junho de 2026
Fonte: Fidelidade Católica
Original: Carta de Broadstairs. Junho de 2026 – Respice Stellam

